sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Mensagens negativas não convencem dependentes químicos

Redação do Diário da SaúdeProcessamento das mensagens
Mensagens negativas não convencem dependentes químicos
O Dr. Joshua Brown recomenda mudar o enfoque das propagandas contra o uso de drogas, que devem passar a destacar os aspectos positivos de se livrar do vício.[Imagem: Indiana University]
Mensagens negativas para tentar convencer pessoas a deixar seus vícios podem não ser o enfoque adequado.
Pesquisadores descobriram que a parte do cérebro associada com a avaliação de riscos tem um nível menor de atividade nas pessoas dependentes de substâncias químicas.
As pessoas dependentes de álcool ou de drogas, e as pessoas não-dependentes, processam as mensagens de forma diferente.
Isso é particularmente verdadeiro quando as mensagens enfatizam riscos, perdas ou redução na perspectiva de ganhos futuros.
Impacto fraco das mensagens negativas
"O que descobrimos é que as mensagens negativas não têm o mesmo impacto no cérebro [entre os dois grupos]," afirma Joshua Brown, da Universidade de Indiana (EUA).
Utilizando técnicas de neuroimagem, os pesquisadores examinaram o impacto de diferentes mensagens sobre os cérebros de indivíduos dependentes de drogas ou álcool e compararam com os efeitos das mesmas mensagens sobre pessoas não-dependentes.
Eles também queriam saber onde está o problema no circuito entre a mensagem, o cérebro e o comportamento - seria na ligação entre o cérebro e o comportamento ou no impacto da mensagem sobre o cérebro?
Por que é bom ficar livre das drogas?
Parece que o problema está logo no início da recepção da mensagem pelo cérebro.
O grupo de pessoas com dependência química apresentou um nível menor de atividade cerebral em resposta às mensagens de cunho negativo.
Na verdade, nos jogos usados nos experimentos, as mensagens negativas levaram a decisões mais arriscadas entre o grupo de dependentes - e, por decorrência, a resultados piores.
Segundo o pesquisador, não adianta ficar repetindo "As drogas fazem mal a você", "Simplesmente diga não" ou "Este é o seu cérebro sob ação das drogas" acompanhado da imagem de um ovo frito.
"O governo gasta milhões todos os anos tentando desencorajar o uso de drogas, e um bocado dos anúncios destacam o perigo das drogas. Não deveríamos então gastar mais destacando os benefícios de ficar livre das drogas?"










quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A MEMÓRIA DO PRAZER E RECAÍDAS

 
No geral o PRAZER pode ser simplesmente definido como uma sensação de “bem estar”. O prazer é uma resposta do organismo ou da mente indicando que nossas ações estão sendo benéficas ao nosso corpo.

Falando em dependência química já instaurada, temos a questão do mecanismo psicológico de buscar a droga e a necessidade biológica que se cria no organismo devido à necessidade do prazer.
Os circuitos de neurônios encarregados de reconhecer sensações agradáveis ao organismo se dirigirem para uma área do cérebro que funciona como um “CENTRO DE RECOMPENSA”.
Quando os neurônios localizados nesse centro são ativados repetidamente por uma substância química ou por uma sensação de prazer induzida por determinado comportamento, eles vão ativar os circuitos que se conduzem para o “CENTRO DE BUSCA”, que é uma área do cérebro capaz de induzir alterações comportamentais que levam à repetição do prazer obtido anteriormente.
Este tipo de mecanismo funciona não somente para o uso de drogas, mas para qualquer outro tipo de prazer (alimentação, sexo, jogo, compras) e neste sentido esta estrutura de funcionamento cerebral foi criada para desempenhar a função de preservação da espécie.
No entanto, no caso das drogas (e de qualquer outra compulsão) há uma interferência (não natural) neste sistema de recompensa, o que causa uma espécie de “CURTO CIRCUITO”, as drogas acabam causando uma ilusão química de prazer, que induz a pessoa a repetir seu uso compulsivamente. Com a repetição do consumo, perdem o significado todas as fontes naturais de prazer e só interessa aquele imediato propiciado pela droga, mesmo que isso comprometa e ameace a vida do usuário. É como se as drogas corrompessem completamente o ESQUEMA CEREBRAL DE RECOMPENSA.
Neste sentido as recompensas servem para manter a frequência excessiva de uso, a sua intensidade e duração, apesar das consequências negativas graves e de longa duração.
Para quem está de fora deste processo fica difícil entender por que o usuário de cocaína ou de crack, já com a saúde deteriorada e tendo passado por várias perdas, não consiga abandonar a droga. Tal comportamento apenas reflete uma disfunção do cérebro. O foco do dependente químico se volta para o prazer imediato propiciado pelo uso da droga, fazendo com que percam significado todas as outras fontes de prazer.
A dependência é, então, o fruto do mecanismo psicológico que leva o indivíduo a buscar o prazer e impedir o desprazer, e fruto das alterações cerebrais que a droga provoca. Essa influência entre aspectos psicológicos e efeito farmacológico acaba determinando o perfil dos sintomas de abstinência de cada pessoa. A compulsão é menor naquelas que toleram a abstinência um pouco mais, e maior nas que a inquietação é intensa diante do menor sinal da síndrome de abstinência.
Para entendermos um pouco o mecanismo da abstinência e de recaída também temos que entender como funciona a memória do prazer, associada às questões comportamentais.
Nossa memória costuma ser analisada em dois grupos: aquelas das quais temos consciência e as que geralmente estão esquecidas.
Assim sendo, de forma consciente, um usuário de cocaína ou um jogador de cartas pode lembrar-se da sensação de euforia proporcionada pela recompensa obtida e ir atrás da repetição dela.
Isso explica por que as pessoas jogam ou cheiram cocaína, mas não justifica a dependência química ou comportamental que desenvolvem pelo resto da vida e que persiste, mesmo quando o prazer deixou de existir. Este é o caso, por exemplo, do dependente de cocaína que desenvolve delírios persecutórios toda vez que usa a droga, porém não consegue deixar de usar, só aciona a memória do prazer e não a do desconforto.
Nas memórias “não conscientes” armazenadas em centros cerebrais especializados, como o hipocampo, está a explicação do lado compulsivo do comportamento que conduz às recaídas.
Ou seja, isto explica porque o usuário crônico insiste na busca de uma recompensa que não mais encontrará. Por que fraqueja depois de ter jurado parar? Por que alguém cheira cocaína mesmo quando vive o terror das alucinações persecutórias toda vez que o faz?

A resposta estaria nos circuitos de neurônios responsáveis pela motivação, memória e aprendizado.
Alguns estudos mostram que a memória e o processo de aprendizado, bem como a exposição do cérebro às drogas psicoativas, modificam a arquitetura das sinapses (o espaço existente entre dois neurônios através do qual o estímulo é modulado ao passar), dando início a uma cadeia de eventos moleculares capazes de alterar o comportamento individual por muito tempo.
Esse mecanismo comum permite entender por que a “fissura” associada à abstinência costuma ser disparada por memórias ligadas ao consumo da droga.
Conscientemente, o usuário pode decidir tomar outra dose ao recordar a euforia ou a felicidade sentida anteriormente. Outros estímulos podem causar efeito semelhante: a visão do cachimbo de crack, o tilintar do gelo no copo, o esconderijo para fumar maconha. Mas existem lembranças mais abstratas (um cheiro, uma música, um fato, uma luminosidade) que podem induzir à procura da droga na ausência de “percepção consciente”.
E no processo de crise abstinência pode haver diversos sintomas: crises de cólicas intestinais, náuseas e palpitação, o que evidenciam que muitas recaídas estão associadas à ausência de “memória consciente”.  Isto está ligado a fantasias que o próprio cérebro cria sobre o uso futuro, que podem ser influenciadas pelas lembranças dos efeitos positivos e que pode ser uma força motivadora para reiniciar o uso da substância.
A busca do prazer é uma característica do ser humano. No caso das drogas, porém, ao querer superar a própria biologia por um artifício químico, ele acaba se destruindo. O desejo de intensificar o prazer ao máximo empurra o homem para um abismo, para uma batalha complexa de ser vencida.
Em qualquer tratamento para dependência química é necessário que haja um plano de prevenção à recaídas que ajude o indivíduo a ter treinar as habilidades necessárias para suprir estas dificuldades.
Educar o dependente químico em recuperação sobre o processo de caída e recaída ajudam, pois ele irá experimentar múltiplas tentativas de parar até atingir estabilidade na mudança de comportamento que almeja.
Este processo ajuda a mudar o comportamento de dependência e a quebrar o vínculo entre busca do prazer e o alívio (ainda que ilusório) do sofrimento obtido com álcool e outras drogas.

O Plano de Prevenção da Recaída (PPR) é um programa de psicoterapia e tratamento que se baseia na capacidade individual da modificação de comportamentos aditivos e visa conscientizar o dependente químico para antecipar, prevenir, modificar, enfrentar, e lidar com situações que o coloque em risco de recaída, situações que o faça voltar a consumir álcool ou outras drogas.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Cientistas acreditam ter descoberto uma variação de um gene que incentiva o consumo de álcool

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    Cientistas acreditam ter descoberto uma variação de um gene que incentiva o consumo exagerado de álcool em algumas pessoas.

    O gene, conhecido como RASGRF-2, eleva o nível de substâncias químicas presentes no cérebro associadas à sensação de felicidade e acionadas com a ingestão de bebidas alcoólicas, informou a revista científica PNAS.

    A equipe de pesquisadores, formada por especialistas da Universidade Kings College, de Londres, descobriu que animais que não possuíam a variação do gene tinham menos "desejo" por álcool do que aqueles que apresentavam tal alteração.

    O estudo também analisou exames de ressonância magnética dos cérebros de 663 adolescentes do sexo masculino.

    O mapeamento revelou que em portadores da versão do gene associada à "bebedeira", todos com 14 anos de idade, havia uma atividade maior em uma parte do cérebro chamada estriado ventral, conhecida por liberar dopamina, substância associada à sensação de prazer.

    Quando os pesquisadores questionaram os adolescentes sobre seus hábitos de consumo de álcool dois anos depois, descobriram que aqueles que tinham a variação do gene RASGRF-2 bebiam mais frequentemente.

    Contudo, o responsável pelo estudo, Gunter Schumann, explicou que ainda não há provas contundentes de que o gene, sozinho, provocaria a compulsão alcoólica, uma vez que outros fatores ambientais e genéticos também estão envolvidos.

    Ele ressaltou, por outro lado, que a descoberta é importante porque joga luz sobre os motivos pelos quais algumas pessoas tendem a ser mais vulneráveis ao álcool do que outras.

    "Nosso estudo indica que talvez este gene regule a sensação de bem estar que o álcool oferece para determinados indivíduos", explicou.

    "As pessoas buscam situações que provoquem tal sensação de "recompensa" e deixem-nas felizes. Portanto, se o seu cérebro for condicionado a atingir tal estágio por meio do álcool, é provável que sempre procure essa estratégia a fim de alcançar tal meta".

    "Agora nós entendemos a cadeia da ação: como os genes moldam a função em nossos cérebros e como que, em contrapartida, isso afeta o comportamento humano".

    "Nós descobrimos que o gene RASGRF-2 tem um papel crucial em controlar como o álcool estimula o cérebro a liberar dopamina e, em seguida, ativa a sensação de recompensa".

    "Portanto, para as pessoas que têm a variação genética do gene RASGRF-2, o álcool lhes proporciona uma maior sensação de recompensa, levando-as a se tornar beberrões".

    Schumann reiterou, entretanto, que mais provas são necessárias para comprovar sua teoria. Ele alertou que o estudo analisou apenas adolescentes do sexo masculino e de uma determinada idade, o que dificultaria estabelecer tendências de consumo de bebidas alcoólicas ao longo prazo.

    Ele disse que, no futuro, pode ser possível realizar testes genéticos para ajudar a prever quais pessoas estão mais propensas ao consumo excessivo de álcool.

    As descobertas também abririam caminho a novas drogas que bloqueiam o efeito de recompensa que algumas pessoas têm após ingerir bebida alcoólica.

    Por outro lado, Dominique Florin, da entidade britânica Medical Council on Alcohol, faz um alerta.

    "É provável que haja um componente genético relacionado ao consumo exagerado de álcool, mas isso não quer dizer que se você tiver o gene, você não pode beber, enquanto se você não o tiver, você pode beber o quanto quiser".
     
  • Fonte: BBC BRASIL

Estudo mostra eficácia do baclofeno para o tratamento do alcoolismo

  • Um estudo dirigido por um médico francês de 2008 a 2010, publicado nesta semana na revista Frontiers in Psychiatry, mostra a eficácia do baclofeno no tratamento a longo prazo do alcoolismo.


    Até o momento, a eficácia desta molécula, inicialmente prescrita na neurologia, mas cada vez mais utilizada no tratamento do alcoolismo, tinha sido testada apenas em curto e médio prazo, até um ano após o início do tratamento.
    O novo estudo, liderado pelo Dr. Renaud de Beaurepaire (Groupe Hospitalier Paul-Giraud em Villejuif, perto de Paris), focou em 100 pacientes, dependentes de álcool e resistente aos tratamentos convencionais. Eles foram tratados com doses crescentes de baclofeno e sem limite superior.
    Os resultados mostram que a percentagem de pacientes que se tornou totalmente abstinente ou que passou a ter um consumo normal, segundo os padrões da Organização Mundial de Saúde (OMS), foi de aproximadamente 50% em todas as avaliações realizadas após três meses, seis meses, um ano e dois anos.
    Um número de pacientes também conseguiu diminuir significativamente o seu consumo de álcool, mas sem ainda ter total controle, e passaram a se enquadrar na categoria de pacientes com "risco moderado", de acordo com padrões da OMS.
    "O número total de pacientes que melhorou significativamente pelo tratamento foi de 84% em três meses, 70% em seis meses, 63% em um ano e 62% em dois anos", indica o estudo.
    O dr. de Beaurepaire é um dos primeiros a receitar altas doses de baclofeno na França e é também um pesquisador de um grande estudo nacional, cujos resultados serão publicados em 2014.
    "Esta é a primeira vez que acompanhamos por dois anos com resultados igualmente bons", afirmou à AFP o professor Philippe Jaury (Université Paris-Descartes).
    O Baclofeno não é um produto milagroso, apresenta falhas na sua utilização, principalmente relacionadas com a intolerância de determinados efeitos secundários (fadiga, sonolência, etc.), o acompanhamento inadequado do tratamento e a falta de motivação, enumera o Dr. de Beaurepaire.
    O Baclofeno é uma droga antiga, originalmente prescrita pela neurologia, para o tratamento de doenças como a esclerose múltipla e paralisia, mas cada vez mais usado na França no tratamento de dependência de álcool.

  • Fonte: Uol Ciência e Saúde