sábado, 7 de dezembro de 2013

Amsterdã atrai alcoólatras ao trabalho oferecendo cerveja

ANDREW HIGGINS - DO “NEW YORK TIMES”, EM AMSTERDÃ
Depois de mais de uma década de desemprego devido a um problema nas costas e alcoolismo crônico, Fred Schiphorst por fim encontrou emprego no ano passado, e está determinado a mantê-lo. 
Ele acorda às 5h30min, leva o cachorro para passear e depois coloca uma gravata vermelha e se prepara para remover o lixo das ruas do leste de Amsterdã. “Temos de trabalhar bem vestidos”, disse Schiphorst, 60, antigo operário de construção.

 Alcoólatras que trabalham para a prefeitura de Amsterdã tomam cerveja durante almoço antes de voltar a limpar ruas
Alcoólatras que trabalham para a prefeitura de Amsterdã tomam cerveja durante almoço antes de voltar a limpar ruas

Seu dia de trabalho começa invariavelmente às 9h –com duas latas de cerveja, um adiantamento sobre um salário pago principalmente em álcool. Ele recebe mais duas latas na hora do almoço e, no fim do dia, mais uma lata– ou duas, caso o trabalho tenha corrido muito bem.
“Não tenho orgulho de ser alcoólatra, mas me orgulho de ter um emprego de novo”, disse Schiphorst, o agradecido beneficiário de um programa incomum, bancado pelo governo, para tirar os alcoólatras das ruas pagando-os em cerveja para que recolham lixo.
Além de cerveja –a marca varia a depender da produtora que ofereça o melhor preço–, cada membro da equipe de limpeza recebe meio pacote de fumo de rolo, um almoço gratuito e dez euros (cerca de R$ 32,00) por dia.
O programa, iniciado no ano passado pela Rainbow Foundation, uma organização privada de ajuda aos moradores de rua, viciados em drogas e alcoólatras, cujos projetos são em sua maioria bancados pelo governo, se tornou tão popular que tem uma longa lista de espera de alcoólatras crônicos ávidos por se tornarem parte das equipes de limpeza movidas à cerveja.
Um dos defensores mais entusiásticos do projeto é Fatima Elatik, subprefeita do leste de Amsterdã. Como muçulmana praticante e usuária do véu tradicional para as mulheres de sua religião, Elatik desaprova o uso do álcool, pessoalmente, mas diz acreditar que os alcoólatras “não podem ser colocados no ostracismo” e simplesmente instruídos a tomar jeito.
É melhor, diz, dar-lhes algo que fazer e restringir seu consumo de álcool a uma quantidade limitada de cerveja, sem bebidas pesadas.
Os membros conservadores do Legislativo municipal de Amsterdã atacaram o que definem como “projeto cerveja” definindo-o como desperdício de dinheiro do governo e como expansão insensata de uma cultura de tolerância que já faz da cidade uma Meca para os usuários de maconha e resultou no mais conhecido bairro de prostituição da Europa.
Hans Wijnands, diretor da Rainbow Foundation, descarta essas queixas como uma simples pose política, em um momento no qual, mesmo na Holanda, “está se tornando moda apoiar medidas repressivas”.
Alarmado pelo que entende como uma alta no crime causada pelas leis liberais quanto ao uso de drogas, o governo holandês anunciou em 2010 um plano para impedir que estrangeiros comprem maconha nos cafés da cidade que vendem maconha e haxixe legalmente.
O prefeito de Amsterdã ordenou que a polícia da cidade ignorasse a proibição, que deveria ter entrado em vigor em todo o país este ano.
“Se você se limita a dizer que eles deveriam parar de beber antes que os ajudemos, isso não funciona”, diz Wijnands, cuja fundação recebe 80% de suas verbas do Estado e que opera quatro salas para consumo de drogas, com seringas limpas para os viciados crônicos.
“Mas se você lhes oferece trabalho com pagamento de algumas latas de cerveja ao dia, eles gostam”.
Para proteger o governo contra críticas de que está subsidiando o alcoolismo, a Rainbow Foundation insiste em pagar com verbas próprias pela cerveja fornecida a Schiphorst e seus colegas.
“Para o governo, é difícil dizer que pagará pela cerveja de determinado grupo de pessoas porque, nesse caso, outros grupos de pessoas também vão querer cerveja”, diz Wijnands.
“Seria bonito se eles todos parassem de beber, mas esse não é o nosso principal objetivo”, acrescentou. “É preciso oferecer uma alternativa às pessoas, para mostrar a elas caminho diferente de ficarem sentadas no parque bebendo até a morte”.
As equipes de limpeza estão proibidas de beber durante o trabalho, mas Schiphorst e seus colegas afirmam que a cerveja que recebem de manhã e na hora do almoço basta para mantê-los funcionando.
“Isso é meu remédio”, diz Schiphorst, com as mãos trêmulas ao provar seu primeiro gole de cerveja na reunião matinal com os supervisores da Rainbow Foundation.
Os moradores locais do distrito leste, que conta com forte presença de imigrantes, costumavam amaldiçoar os alcoólatras por fazer do Oosterpark, a principal área pública da região, um bar a céu aberto, mas agora os recebem com sorrisos enquanto eles fazem a limpeza, vestindo paletós laranja e carregando sacos de lixo amarelos.
“Não é um projeto de cerveja, é um projeto de limpeza”, diz Elatik, acrescentando que a ideia obteve muito mais sucesso em manter os alcoólatras fora do Oosterpark do que iniciativas governamentais precedentes.
Em visita realizada em uma tarde recente, havia apenas três pessoas bebendo no parque, em lugar de dezenas, como era o costume anteriormente, ela disse.
Até que começasse o programa de trabalho pago em cerveja, as autoridades haviam tentado tirar os bêbados do bar proibindo o consumo de álcool no local e reforçando as patrulhas de segurança.
Mas isso só levou os alcoólatras a se transferirem a outras praças da região e causou brigas com os guardas. Schiphorst foi detido depois de uma confusão do tipo. “É fácil dizer que precisamos nos livrar deles e puni-los”, diz Elatik. “Mas isso não resolve o problema”.
“Talvez eu tenha o coração mole, mas isso não me incomoda se eu puder ajudar as pessoas. São seres humanos com problemas, e não simplesmente uma dificuldade a remover”.

Personagens com HIV chegam à Turma da Mônica

Vitória e Igor são os novos colegas de Mônica e Cebolinha na revista especial 'Amiguinhos da Vida', parte de uma campanha de conscientização sobre a vida com o vírus da aids, dirigida a crianças e adultos

Mauricio de Sousa autografa a revistinha 'Amiguinhos da Vida', que traz personagens portadores do HIV
Mauricio de Sousa autografa a revistinha 'Amiguinhos da Vida', que traz personagens portadores do HIV (Divulgação)
Em mais um dia a caminho da escola no bairro do Limoeiro, Mônica, Magali e Cebolinha parecem agitados com a novidade que está por vir – dias antes, a professora já avisara que dois novos coleguinhas chegariam à classe. É quando, como um jato, Igor passa apressado por eles. “Que gatinho!”, diz Mônica, provocando Cebolinha que, como sempre, reage com ciúme. “Ele só foi simpático polque ainda não conhece você, Mônica! Quando ele pelceber como você é casca glossa...”, provoca. 
Bem-humorados e de bem com a vida, Igor, amante de corridas, e Vitória, exímia patinadora, são os novos personagens da Turma da Mônica, parte da revista especial Amiguinhos da Vida, que chegam para conscientizar crianças e adultos sobre a vida com o vírus HIV. É uma iniciativa da ONG Amigos da Vida, que atua no Distrito Federal no auxílio aos pacientes soropositivos, e do desenhista Mauricio de Sousa, lançada em cerimônia no Centro Cultural Banco do Brasil na noite desta terça (3). “Estive lá na ONG e as crianças são mesmo como o Igor e a Vitória. Depois da visita, foi fácil escrever a história. São personagens vivos, muito fortes e acho que vamos continuar com eles pelo tempo que for necessário, enquanto houver preconceito”, disse o pai da Mônica ao site de VEJA, revelando ainda que pretende estender a iniciativa aos leitores adolescentes, por meio da linha Turma da Mônica Jovem. “Ali, poderemos avançar um pouco mais nas informações. Com certeza será um belo projeto”, afirmou
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À primeira vista, a informação de que um assunto tão delicado será tratado numa revista para crianças pode causar certo estranhamento. Como falar sobre Aids com os pequenos? Mas basta começar a ler o gibi para perceber a delicadeza da história. “O objetivo não é falar sobre a transmissão, moléstia, tratamento ou relação sexual. O objetivo é falar sobre o preconceito e que todas as crianças podem brincar juntas, de igual para igual”, explicou Mauricio. “A criança é um ser inocente, ela não sabe o que é preconceito. O preconceito é algo que elas aprendem com os adultos”, cometou.
A revistinha, apesar de direcionada aos pequenos, tem como alvo final os pais. A ideia surgiu quando o presidente da Amigos da Vida, Christiano Ramos, que convive com o HIV há 27 anos, percebeu a rejeição que as crianças soropositivas sofriam dos pais das crianças não portadoras do vírus nas brinquedotecas que a instituição mantém em hospitais públicos do DF. “Muitos pais simplesmente não permitem que seus filhos brinquem no espaço que também é ocupado pelas crianças com HIV”, diz. “Pensando em como reverter esse quadro, tive a ideia de procurar o Mauricio, que imediatamente abraçou a causa e pôs sua equipe de criadores à nossa disposição durante um mês, nos acompanhando no ambiente hospitalar, no dia a dia das crianças.”
Na história, a professora apresenta os novos alunos à classe e Vitória vai logo deixando tudo às claras. “Nós gostaríamos que vocês soubessem que vivemos com o HIV. É um vírus que desenvolve a aids, e que tem tratamento”, diz. “Pode-se viver normalmente com ele”, completa a professora.
O gibi exalta principalmente o gosto da dupla pela prática dos esportes. Igor diz que um de seus ídolos é o jogador americano de basquete Magic Johnson, não por acaso portador de HIV e um dos maiores porta-vozes da luta contra a aids. “Acho que fomos muito felizes porque os personagens são bem-resolvidos, como as crianças costumam ser – basta que você deixe que elas vivam a vida como ela se apresenta”, observa Mauricio. “A criança bem-resolvida não leva um problema que tem na escola para casa ou empurra para o dia seguinte. É igual à Mônica – às vezes ela recorre ao coelhinho, mas nunca deixa de resolver seus problemas e segue a vida, feliz, brigando e fazendo as pazes com seus amigos.
O projeto tem apoio do Unicef. Os idealizadores pretendem espalhar a iniciativa por todas as escolas públicas de ensino fundamental do país. Já está na rede do DF, e nas próximas semanas chega às escolas do Rio e no começo do ano, às de São Paulo. O projeto prevê ainda a capacitação dos professores para que o assunto seja discutido dentro da sala de aula. “Estamos falando de aids, não de qualquer patologia, é preciso sutileza”, pontua Ramos, cujo trabalho beneficia cerca de 2.800 mil famílias. Também atua no projeto a presidente de honra da entidade, Caminha Manfredini, mãe do líder da Leigão Urbana, Renato Russo, que morreu em consequência do HIV em 1996.
Apesar do grande número de apoiadores que se engajaram na iniciativa, Ramos lamenta que o “momento político seja tão difícil”. A ONG busca uma parceria com o Mistério da Educação, que garantiria a distribuição do gibi em todo o território nacional.  O Unicef estima que haja hoje no Brasil mais de 20 mil crianças e adolescentes portadoras do vírus. “Se a gente puder adotar e amar o Igor e a Vitória como amamos a Mônica e o Cebolinha, a inclusão das crianças portadoras de HIV estará garantida”, disse a consultura do Unicef Isabel Abelson, uma das incentivadoras do projeto.

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Outra ação coordenada pela Secretaria da Saúde é o Cratod (Centro de Referência de Álcool Tabaco e outras Drogas). A unidade foi implantada para melhor receber a grande demanda espontânea de familiares e dependentes e conta com uma força tarefa das Secretarias envolvidas para proporcionar uma escuta humanizada e um encaminhamento qualificado aos que procuram ajuda.
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